A Tecnologia disponível às aplicações do Setor Ferroviário

 

As indústrias do plástico, borracha e seus aditivos apresentam, a cada ano, produtos melhorados ou inovadores, com características técnicas alteradas, que nos permitem visualizar novos horizontes de aplicações e desempenhos.

A consequência destas inovações é a abertura de oportunidade para que os grandes fabricantes de fios e cabos possam desenvolver produtos cada vez melhores, seguros e com desempenho, muitas vezes, acima dos paradigmas presentes nos mais diversos mercados.

O que nos causa preocupação é que, frequentemente, esses paradigmas acabam se enraizando na cultura das empresas, transformando-se em dogmas, nocivos aos produtos, aos usuários e a um mercado ou ramo de atividade como um todo.

Para exemplificar o tema, vamos avaliar o caso das aplicações no Setor Ferroviário.

Atualmente, a grande parte dos deslocamentos urbanos no Brasil e nas capitais mundiais acontece por meio de trens e metrôs, causando um enorme aglomerado de usuários em circulação nas estações e circunvizinhanças, sobretudo nos horários de pico.

Como em qualquer projeto, as boas práticas nos levam a fazer análises preventivas e, inclusive, adotar sistemas de correções para situações e eventos previsíveis.

No setor ferroviário, em análise, essa situação não é diferente. Entre outra infinidade de temas, dois deles são de extrema relevância para nosso estudo: a possibilidade de incêndio em composições e/ou estações e a necessidade de evacuar um grande número de pessoas em locais confinados ou de difícil circulação ou acesso.

Vamos avaliar os casos de incêndios:

Toda e qualquer construção ou instalação é passível de sofrer com incêndios. Atualmente tentamos nos cobrir com diversos sistemas e equipamentos para sua prevenção, no entanto, a cada dia nos deparamos com novas causas e situações que levam a ocorrerem acidentes dessa natureza de magnitudes variadas, desde pequenos focos, até incêndios de grandes dimensões.

Um dos grandes causadores de incêndios são sistemas elétricos, uma vez que a corrente elétrica e a elevação térmica estão intimamente ligadas.

Posto isso, fica fácil entender a necessidade da utilização de fios e cabos elétricos com alto poder de retenção de chama (não propagação). Os cabos com essa característica, não transferem a chama de um ponto a outro, alastrando o incêndio para toda instalação.

Vale salientar que existem diferentes níveis de cabos antichama, que vai desde cabos que queimam completamente, mas não alastram o fogo, até produtos que, inclusive, conseguem auto extingir a chama (no fio ou cabo) após um curto período de queima.

Essa questão está mais sedimentada nas aplicações, sendo hoje quase um “commodity” na aplicação dos produtos destinados ao Setor Ferroviário.

Outros pontos que estão intimamente ligados aos casos de incêndios, tratam da sinalização para evacuação das áreas de riscos e dos sistemas de combate aos incêndios.

Muitas das sinalizações são luminosas, ou seja, dependem do fornecimento de energia elétrica, mesmo sob condição de incêndio, assim como, o sistema de bombeamento para os hidrantes.

Hoje existem no mercado, cabos que conseguem trabalhar sob chama direta, por um período mínimo de duas horas, mantendo a condução de corrente e o isolamento elétrico do condutor para o ambiente.

No entanto observamos, em muitos casos, a não utilização desses produtos em todos os sistemas onde essa característica pode ser o divisor de águas entre a salvaguarda das pessoas e do patrimônio envolvido, ou a perda de vidas e destruição total desse patrimônio.

A não utilização está normalmente vinculada ao desconhecimento das características envolvidas nos sistemas, como um todo; no desconhecimento da existência de produtos com essa funcionalidade; no uso de normas desatualizadas, que foram emitidas antes das novas tecnologias estarem disponíveis no mercado e, infelizmente, por questões voltadas aos custos envolvidos.

É necessário ainda, avaliar um outro ponto que merece tanta atenção quanto os outros até aqui abordados, e que trata da toxicidade dos materiais presentes nas instalações. Em locais confinados e de difícil evacuação é preponderante o uso de materiais não halogenados.

Halogênio é uma palavra de origem grega que significa formadores de sais. Materiais halogenados são compostos que possuem elementos da família 7A da tabela periódica, conhecidos por seu alto grau de toxicidade.

Esses materiais são muito utilizados devido sua característica de agregar resistência à chama (não propagação). No entanto, quando sob queima, liberam gases altamente tóxicos, que incapacitam as pessoas em um curto intervalo de tempo, causando a morte.

Como pode ser observado, chegamos a um ponto de conflito, ou seja, precisamos de cabos com alto grau de não propagação de chama, porém os melhores antichamas são halogenados.

Atualmente esse conflito está cada vez menor. Como falamos no início desse texto, a cada ano o desenvolvimento dos insumos e dos compostos evoluem, onde conseguimos atingir os níveis de antichama desejados, sem fazer uso de compostos halogenados.

Isso não é diferente para os fios e cabos. Hoje existem produtos com grau elevado de resistência a chama, totalmente isentos de halogênio e, ainda, com supressão de fumaça, o que significa dizer que, em condição de queima, a quantidade de fumaça gerada é extremamente pequena, permitindo às pessoas se locomoverem pelo ambiente com visibilidade suficiente para evacuação do local.

Esse exercício nos demonstra a importância de estarmos antenados com o desenvolvimento tecnológico necessário às áreas em que atuamos, ampliando as possibilidades e alterando os paradigmas para novos patamares. Em vários casos, grandes implicações estão ligadas a essa inobservância.

Infelizmente, o Brasil, em várias áreas, ainda se mostra um país carente em tecnologia de ponta e o acesso a itens importados torna-se difícil ou altamente onerosos. Porém, para alguns segmentos, esse paradigma também está mudando. Hoje, existem empresas sérias e sólidas que buscam atender necessidades, como as exploradas nesse estudo.

No setor de fios cabos que é de nosso maior conhecimento, podemos dizer que temos hoje em nosso país produtos à disposição que apresentam o mesmo rendimento e características de produtos topo de linha utilizados mundialmente e, em alguns pontos, que até superam esses produtos. Acreditamos que essa condição ocorra em outras áreas, basta ficarmos atentos e antenados às nossas áreas de interesse.

 

 

Engenheiro Jeronimo Guandalini Marinho

Coordenador de SGQ da Cofibam

jeronimo.marinho@cofibam.com.br

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